
Memórias de um Punhado de Cinzas
Ah! Quando eu era uma caveira
E os ossos cantavam o desmoronamento...
Na cova fria e hospedeira
Ouvia no mundo tudo quanto era tormento.
Olhava pra mim em ruína,
Meu caixão, casa minha, a terra comeu!
Tomou-me como se toma de um sovina,
Meu tutano bebeu!
Quando era organismo decomposto,
Fábrica dos invertebrados necrófagos,
Apodrecendo também estava o mundo! Desgosto...
Marchavam homens de corpos vagos.
Passeavam os operários por toda a derme morta;
Nem em vida fui assim tão amado!
Amor não mais importa.
Nasci para devorar. No fim... Fui devorado!
Tão belo foi o meu enterro...
O céu chorava!
Era de todos os prantos, o mais tenro;
Só o céu era verdadeiro. Só ele pesava.
Deram-me rosas. Pra quê?!
Se em espinhos minh’alma pisou até o Calvário!
Se a terra tomou pra si o fúnebre buquê!
Minh’alma se perdia da luz... O chão ceiava o meu rosário...
Vermes, eu era vivo! Gente!
Gente que o amor escravizou,
Que o mundo cuspiu e tornou descrente,
Que igual a vós rastejou!
E hoje! Nem carne, nem ossos...
Sou farelo do que um dia foi existência,
Dores, gritos e fracassos - Destroços!
Obrigado Morte! Não mais ser era a minha clemência.
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Há 7 anos






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