O Monstro e a Rosa
A lua está cheia...
Não chores por mim.
A noite faz os pingos de neblina brilhar.
Meu jardim é um palco.
Teu palco...
Onde floresces exalando teu perfume fúnebre.
Que me embriaga...
Que me alucina...
Eu vejo você minha dama vermelha.
Posso ouvir seus sussurros chamando-me.
Minhas mãos te apertam e sangram,
Banhando as tuas raízes.
Não chores por mim...
Agora parte de mim está em você.
Para que ninguém te toque,
Para que ninguém te ame,
Para que ninguém roube você de mim...
É por isso que te trouxe aqui minha rosa.
Meu jardim é onde você jaz tranquila.
Enquanto está rosa existir...
Continuarás viva na minha memória.
O Monstro e a Rosa- 2
Antes do Renascer
Eu sou o monstro a espreitar das sombras
A beleza de minha amada.
Minha presa que vaga perdida
Exalando pura inocência!
De coração sombrio como a noite
Tento tirar das entranhas de minha insanidade
O amor que a ti darei.
Mórbido...
Ávido...
Segue os meus sussurros
Que te guiam ao meu refúgio em ruínas,
E contemplas a beleza morta...
Meu jardim sobre túmulos e mausoléus!
A ti mulher de vestes brancas...
Meu jardim...
Tua casa...
Teu túmulo!
Lentamente eu vou te despedaçando
Como se tu fosses pétalas de rosas
Arrancadas uma por uma.
E tu renascerás tão vermelha e viva
Que irás parecer feita de sangue!
Agora compreendes o que sinto?! Isso é... amor?!
Pois mesmo sendo eu um monstro,
Aqui dentro ainda bate...
Ainda bate...
AINDA BATE UM CORAÇÃO!

O Monstro e a Rosa- 3
A Dama Vermelha
Cansado e sem voz,
Sou o caçador que virou presa.
Ela voltou...
Ela voltou para me amar.
Com passos solene ela me persegue,
Toda em vermelho sangue.
Veio me reclamar a não vida,
Sua condição de morta prisioneira,
Veio cortar a linha tênue
Que a prende a mim.
Livrai-me Deus do seu amor!
Mergulho em fossa gélida e profunda.
Suposta segurança ou perdição?
Sua nênia soa fina em minha mente
E tortura-me junto com a pressão.
Só me resta regressar a superfície,
Correr para os bosques sombrios
E me esconder atráz das árvores mortas.
Eu me espeto nos espinheiros...
Único caminho a se esgueiar.
Seus sussurros cada vez mais próximos,
Chamando meu nome...
Chamando meu nome ...
Ela segue meu rastro de sangue,
Não importa onde eu vá!
Ela sente o cheiro do meu medo,
Ficando com mais vontade de me amar!
Correndo em frenesi, caindo em sepulcros secretos
Descubro um cemitério esquecido,
Dos tempos de outrora...
E com o corpo coberto de poeira óssea
Subo a mais alta colina. Tão íngreme...
Esta é a minha guarida. -Um imenso precipício...
Olho o horizonte negro,
Que nem a luz da lua consegue beijar
E vejo o vulto encarnado vindo a mim.
Ela vem para me amar....
Vem sedenta, e com um beijo rouba-me a vida.
Agora ja sem carne e com aquela que me amou...
Apenas sigo uma sombra que carrega meu cadáver
E o vela no meu refúgio.
A mesma sombra das noites de solidão
Que me ensinou o amor
E sussurrou-me seu nome: -Mephistopholis...
Meu refúgio.
Que em noites passadas foi palco para o amor...
Hoje tornou-se antro de danação.

Soneto à Alma Fracassada
Eu sou o fracasso encarnado
Que vive da felicidade alheia,
Cujo sangue correndo impuro na veia,
Jorra por este chão maculado.
Enxergo a morte no horizonte
Vindo para ceifar toda uma história,
Ofertar aos vermes esta escória
E as sobras atirar deste monte.
No abismo chamam meu nome...
São os que um dia, no fracasso caíram...
Destino o qual somos presos.
Eles choram os laços que se partiram
Com espinhos nos seus corações indefesos!
Onde a dor do esquecimento supera a da fome...

Nosso Lugar
...São os campos ocultos
Onde o som não ressoa,
Onde nem vida... vultos!
Nos cantos que o céu não perdoa.
...É o mar negro dos afogados
Amantes miseráveis,
Que se beijam, se chagam de pecados;
Talvez cura para prantos lastimáveis.
Noso lugar é o Baixo,
Em meio a tudo que vem do chão...
O Abismo do Imaginário. Onde encaixo
...Planto... Colho nossa doce perdição!
...São as ruínas da Vida
E nós, um ao outro em soluços de súplica,
Mendigando a migalha esquecida
Já não é de ambos a mente lúcida!
A loucura - nosso Campos Elísios!
Jardim de psicoses
Para que percamos os vestígios
Do sã, já sujo de histeria... delírios ferozes!
Atiramos contra Deus
E merecemos a condenação!
Não sentirei dor nos braços seus,
Dentro da nossa Fogueira de Inquisição...





